/apidata/imgcache/c6815b5c82db5d4cfbba55beb5dced63.jpeg?banner=header&when=1770673915&who=257

Deságio no cacau brasileiro: uma análise técnica, ambiental e socioeconômica

O mercado internacional do cacau atingiu, em 2024/2025, patamares históricos, com cotações próximas de @ 412,00 na Bolsa de Nova York, impulsionadas por quebra de safra na África Ocidental, problemas fitossanitários recorrentes, instabilidade climática e redução da oferta global.

Atualizado em 15/01/2026 às 12:01, por Caliana Mesquita e Ney Marçal.

Frutos de cacau em diferentes estágios de maturação — verdes, amarelos e avermelhados — crescendo diretamente no tronco de uma árvore de cacau, cercados por folhas verdes iluminadas pela luz natural.

 

  1. Preço internacional x preço ao produtor

 

Apesar disso, o produtor brasileiro segue recebendo valores significativamente inferiores, em função de deságios comerciais que variam conforme origem, escala e canal de comercialização, muitas vezes sem lastro técnico proporcional.

  1. Produção global e inconsistência dos critérios éticos

A África responde por aproximadamente 70% da produção mundial de cacau, com destaque para Costa do Marfim e Gana. Relatórios internacionais apontam persistência de trabalho infantil, falhas de rastreabilidade e fragilidades fitossanitárias. Ainda assim, esses países não sofrem penalizações equivalentes às impostas ao produtor brasileiro, evidenciando assimetria regulatória e comercial.

  1. O cacau brasileiro como ativo ambiental estratégico

O Brasil possui um diferencial técnico relevante:

Sistema Cabruca (Bahia): cultivo sob dossel da Mata Atlântica, manutenção de até 70% da cobertura florestal original, conservação da biodiversidade e dos recursos hídricos.

Amazônia Legal (Pará, Amazonas, Rondônia): o cacau é uma das poucas culturas economicamente viáveis que mantêm a floresta em pé, atuando como barreira ao desmatamento e instrumento de recuperação de áreas degradadas via sistemas agroflorestais.

Do ponto de vista técnico-ambiental, o cacau brasileiro gera externalidades positivas mensuráveis, hoje não precificadas pelo mercado.

  1. Impacto socioeconômico e geração de empregos

A cadeia do cacau no Brasil envolve milhares de pequenos e médios produtores, cooperativas, agroindústrias, logística e indústria de chocolate.

Estados com impacto direto relevante:

Bahia

Pará

Espírito Santo

Rondônia

Amazonas

O setor gera empregos diretos e indiretos, fixa o homem no campo e movimenta economias regionais. O deságio excessivo compromete renda, reinvestimento, adoção tecnológica e a própria sustentabilidade econômica da atividade.

  1. O paradoxo da sustentabilidade

O produtor brasileiro cumpre uma das legislações ambientais mais rígidas do mundo, preserva Amazônia e Mata Atlântica, produz cacau de qualidade reconhecida e gera empregos em múltiplos estados. Ainda assim, não recebe prêmio ambiental nem proteção econômica proporcional ao serviço ambiental prestado, revelando um descompasso entre discurso internacional e prática de mercado.

  1. Governança, mercado e responsabilidade institucional

Do ponto de vista técnico, a correção dessa distorção exige critérios de deságio transparentes e auditáveis, diferenciação positiva para sistemas agroflorestais e reconhecimento econômico dos serviços ambientais prestados.

Nesse contexto, torna-se fundamental o posicionamento de lideranças estratégicas do setor. A Dengo Chocolates, referência internacional na valorização da origem e na relação direta com produtores, tem papel relevante para transformar esse discurso em força concreta de mercado. Da mesma forma, Marco Lessa, autoridade técnica com voz internacional, reúne legitimidade para levar essa pauta ao debate global e defender critérios mais justos para o cacau agroflorestal brasileiro.

Neutralidade institucional, em ambientes de assimetria, não é técnica — é política.

Conclusão técnica

O deságio aplicado ao cacau brasileiro não reflete qualidade, sustentabilidade nem impacto socioambiental real. O Brasil entrega preservação florestal, geração de empregos no Espírito Santo e em pelo menos outros quatro estados, segurança jurídica e qualidade crescente do produto.

Persistir em deságios injustificados significa penalizar quem faz certo e distorcer um mercado que deveria premiar boas práticas.

Do ponto de vista técnico, econômico e ambiental, o produtor brasileiro merece valorização, não punição.

 

Cleber Isaac Ferraz Filho é administrador de  empresas; produtor do programa Economia Verde desde 2018; produtor de cacau ; Mestrando em Direito e Sustentabilidade pelo Ibrades

Fonte: https://www.cacauechocolate.com.br/v1/2026/01/15/desagio-no-cacau-brasileiro-uma-analise-tecnica-ambiental-e-socioeconomica/


Leia também: