A CEPLAC foi financiada pelo cacau — e o maior beneficiário foi o Estado
Pouca gente sabe — ou prefere não dizer — um fato central da história da cacauicultura brasileira: a CEPLAC foi financiada, por décadas, pelo próprio cacau. E quem mais se beneficiou desse arranjo não foi o produtor, mas o Estado brasileiro — especialmente durante o regime militar.
Cleber Isaac Filho

Esse dado muda completamente a narrativa oficial.
O dinheiro vinha da exportação
Desde sua criação, em 1957, a Comissão Executiva do Plano da Lavoura Cacaueira passou a operar com recursos extraídos diretamente da exportação do cacau, por meio de:
taxas sobre exportação,
retenções cambiais,
contribuições compulsórias vinculadas ao comércio externo.
Em termos simples: cada saca exportada financiava o sistema.
O cacau pagava.
O produtor pagava.
O Estado administrava.

A CEPLAC cresceu, se estruturou, criou centros de pesquisa, prédios, cargos e uma cultura burocrática sólida — tudo isso alimentado pelo sucesso da lavoura cacaueira.
Os ciclos de alta e a captura pelo regime militar
Dois momentos são fundamentais para entender quem realmente se beneficiou desse modelo.
1964
Logo após o golpe militar, o cacau entrou em um ciclo de forte valorização internacional.
Entraram dólares.
Entrou arrecadação.
Sem Congresso atuante, sem imprensa livre e sem fiscalização independente, o regime militar encontrou no cacau uma fonte silenciosa de financiamento estatal.
A CEPLAC passou a operar não apenas como órgão técnico, mas também como canal de centralização de recursos, sem controle social efetivo.
O produtor continuou assumindo o risco.
O Estado fortaleceu seu caixa.
1985

Às vésperas do fim do regime, uma nova alta internacional voltou a inflar a arrecadação.
Mais uma vez:
o dinheiro entrou;
a estrutura cresceu;
mas a base produtiva permaneceu frágil, concentrada e vulnerável.
Sem fiscalização, sem transparência, sem retorno
Durante décadas:
não houve transparência;
não houve controle externo;
não houve prestação de contas clara sobre o uso dos recursos do cacau.

A CEPLAC arrecadava.
O Estado centralizava.
O produtor não decidia.
Quando a crise chegou, ninguém assumiu a responsabilidade.
A falácia da falta de recursos
Atribuir o fracasso da CEPLAC à falta de dinheiro é historicamente falso.
Houve:
recursos;
tempo;
alertas científicos;
precedentes internacionais.
O que faltou foi:
governança;
independência técnica;
compromisso com o produtor — não com o caixa do Estado.

A vassoura-de-bruxa não foi surpresa
A vassoura-de-bruxa não caiu do céu.
Ela foi precedida por estudos e alertas sobre:
fragilidade genética;
dependência de um único modelo produtivo;
ausência de diversificação tecnológica.
A CEPLAC, financiada pelo próprio cacau, não antecipou, não preveniu e não protegeu.
O produtor pagou a conta.
O passivo oculto: o pacote tecnológico que ainda destrói produtores
Há um ponto central — e convenientemente ignorado — que precisa ser afirmado sem rodeios.
Até hoje, o pacote tecnológico que a CEPLAC induziu o Banco do Brasil a financiar segue produzindo prejuízos econômicos, jurídicos e patrimoniais aos produtores de cacau.
Durante décadas, a CEPLAC recomendou oficialmente um modelo tecnológico específico, vendido como solução definitiva. Com base nessas recomendações, o Banco do Brasil financiou esse pacote em larga escala, transformando orientação técnica em endividamento compulsório.
O resultado é conhecido:

o pacote não funcionou;
a produtividade prometida não veio;
a renda não se sustentou;
e o produtor ficou com a dívida.
Dívidas que nunca se encerram
Mais de 20 anos depois, milhares de produtores ainda convivem com as consequências desse erro institucional:
prejuízos acumulados;
execuções judiciais;
processos com trânsito em julgado;
imóveis com gravames ativos;
e a impossibilidade prática de dar baixa nessas restrições.
Isso não é falha individual.
É um passivo sistêmico.
O produtor não escolheu sozinho.
Ele seguiu orientação técnica oficial e crédito induzido pelo Estado.
O silêncio institucional da ANPC
E aqui está o ponto mais grave:
Esse passivo histórico não aparece no discurso da ANPC.
Não aparece como diagnóstico, nem como reconhecimento de erro, nem como agenda de reparação.
Fala-se em “nova CEPLAC”, em futuro, em governança — sem enfrentar o entulho do passado que ainda asfixia o presente.
Não existe nova institucionalidade enquanto:

produtores seguem negativados;
propriedades permanecem bloqueadas;
cadeias produtivas continuam travadas por erros que não cometeram sozinhas.
Governança também é assumir erros
Governança corporativa não é estatuto nem organograma.
Governança é:
reconhecer decisões equivocadas;
mapear impactos de longo prazo;
enfrentar passivos ocultos;
construir soluções institucionais reais.
Ignorar o fracasso do pacote tecnológico — e sua ligação com o crédito oficial — é reproduzir a lógica histórica da CEPLAC: decidir, errar e empurrar o custo para o produtor.
Um gesto simples, um marco institucional
Diante desse histórico, há um gesto simples — e profundamente simbólico — que pode marcar a ruptura com o passado.
Seria oportuno que a presidente da ANPC, Vanusa, convocasse uma audiência pública para explicar, de forma clara e acessível:
o que é essa nova CEPLAC;
como funciona a governança da ANPC;
de onde vêm os recursos;
como são aplicados;
e quais mecanismos efetivos existem para controle, fiscalização e correção de rumos.
Audiência pública não é fraqueza.
É confiança institucional.
Conclusão
É correto afirmar, sem rodeios:
> A CEPLAC foi financiada pelo cacau exportado.
O maior beneficiário foi o Estado — especialmente durante o regime militar — e não o produtor.
Se a ANPC pretende representar uma ruptura real, precisa começar com:
transparência;
governança clara;
reconhecimento dos erros;
e diálogo aberto com quem pagou a conta.
Sem isso, a “nova CEPLAC” corre o risco de nascer velha.
Com discurso moderno — e o mesmo silêncio estrutural.
—
Cleber Isaac Filho é hoteleiro, ambientalista, empreendedor e coordenador do Programa Economia Verde








