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A CEPLAC foi financiada pelo cacau — e o maior beneficiário foi o Estado

Pouca gente sabe — ou prefere não dizer — um fato central da história da cacauicultura brasileira: a CEPLAC foi financiada, por décadas, pelo próprio cacau. E quem mais se beneficiou desse arranjo não foi o produtor, mas o Estado brasileiro — especialmente durante o regime militar.

Atualizado em 19/12/2025 às 15:12, por Caliana Mesquita e Ney Marçal.

Entrada da Ceplac em imagem em preto e branco, com letras monumentais no gramado e estruturas arquitetônicas ao fundo.

 Cleber Isaac Filho

Esse dado muda completamente a narrativa oficial.

O dinheiro vinha da exportação

Desde sua criação, em 1957, a Comissão Executiva do Plano da Lavoura Cacaueira passou a operar com recursos extraídos diretamente da exportação do cacau, por meio de:

 

taxas sobre exportação,

retenções cambiais,

contribuições compulsórias vinculadas ao comércio externo.

Em termos simples: cada saca exportada financiava o sistema.

O cacau pagava.
O produtor pagava.
O Estado administrava.

A CEPLAC cresceu, se estruturou, criou centros de pesquisa, prédios, cargos e uma cultura burocrática sólida — tudo isso alimentado pelo sucesso da lavoura cacaueira.

Os ciclos de alta e a captura pelo regime militar

Dois momentos são fundamentais para entender quem realmente se beneficiou desse modelo.

1964

Logo após o golpe militar, o cacau entrou em um ciclo de forte valorização internacional.
Entraram dólares.
Entrou arrecadação.

Sem Congresso atuante, sem imprensa livre e sem fiscalização independente, o regime militar encontrou no cacau uma fonte silenciosa de financiamento estatal.

A CEPLAC passou a operar não apenas como órgão técnico, mas também como canal de centralização de recursos, sem controle social efetivo.

O produtor continuou assumindo o risco.
O Estado fortaleceu seu caixa.

1985

Às vésperas do fim do regime, uma nova alta internacional voltou a inflar a arrecadação.

Mais uma vez:

o dinheiro entrou;

a estrutura cresceu;

mas a base produtiva permaneceu frágil, concentrada e vulnerável.

Sem fiscalização, sem transparência, sem retorno

Durante décadas:

não houve transparência;

não houve controle externo;

não houve prestação de contas clara sobre o uso dos recursos do cacau.
 

A CEPLAC arrecadava.
O Estado centralizava.
O produtor não decidia.

Quando a crise chegou, ninguém assumiu a responsabilidade.

A falácia da falta de recursos

Atribuir o fracasso da CEPLAC à falta de dinheiro é historicamente falso.

Houve:

recursos;

tempo;

alertas científicos;

precedentes internacionais.

O que faltou foi:

governança;

independência técnica;

compromisso com o produtor — não com o caixa do Estado.


A vassoura-de-bruxa não foi surpresa

A vassoura-de-bruxa não caiu do céu.

Ela foi precedida por estudos e alertas sobre:

fragilidade genética;

dependência de um único modelo produtivo;

ausência de diversificação tecnológica.

A CEPLAC, financiada pelo próprio cacau, não antecipou, não preveniu e não protegeu.

O produtor pagou a conta.

O passivo oculto: o pacote tecnológico que ainda destrói produtores

Há um ponto central — e convenientemente ignorado — que precisa ser afirmado sem rodeios.

Até hoje, o pacote tecnológico que a CEPLAC induziu o Banco do Brasil a financiar segue produzindo prejuízos econômicos, jurídicos e patrimoniais aos produtores de cacau.

Durante décadas, a CEPLAC recomendou oficialmente um modelo tecnológico específico, vendido como solução definitiva. Com base nessas recomendações, o Banco do Brasil financiou esse pacote em larga escala, transformando orientação técnica em endividamento compulsório.

O resultado é conhecido:


o pacote não funcionou;

a produtividade prometida não veio;

a renda não se sustentou;

e o produtor ficou com a dívida.

Dívidas que nunca se encerram

Mais de 20 anos depois, milhares de produtores ainda convivem com as consequências desse erro institucional:

prejuízos acumulados;

execuções judiciais;

processos com trânsito em julgado;

imóveis com gravames ativos;

e a impossibilidade prática de dar baixa nessas restrições.

Isso não é falha individual.
É um passivo sistêmico.

O produtor não escolheu sozinho.
Ele seguiu orientação técnica oficial e crédito induzido pelo Estado.

O silêncio institucional da ANPC

E aqui está o ponto mais grave:

Esse passivo histórico não aparece no discurso da ANPC.

Não aparece como diagnóstico, nem como reconhecimento de erro, nem como agenda de reparação.

Fala-se em “nova CEPLAC”, em futuro, em governança — sem enfrentar o entulho do passado que ainda asfixia o presente.

Não existe nova institucionalidade enquanto:

produtores seguem negativados;

propriedades permanecem bloqueadas;

cadeias produtivas continuam travadas por erros que não cometeram sozinhas.

Governança também é assumir erros

Governança corporativa não é estatuto nem organograma.

Governança é:

reconhecer decisões equivocadas;

mapear impactos de longo prazo;

enfrentar passivos ocultos;

construir soluções institucionais reais.

Ignorar o fracasso do pacote tecnológico — e sua ligação com o crédito oficial — é reproduzir a lógica histórica da CEPLAC: decidir, errar e empurrar o custo para o produtor.

Um gesto simples, um marco institucional

Diante desse histórico, há um gesto simples — e profundamente simbólico — que pode marcar a ruptura com o passado.

Seria oportuno que a presidente da ANPC, Vanusa, convocasse uma audiência pública para explicar, de forma clara e acessível:

o que é essa nova CEPLAC;

como funciona a governança da ANPC;

de onde vêm os recursos;

como são aplicados;

e quais mecanismos efetivos existem para controle, fiscalização e correção de rumos.

Audiência pública não é fraqueza.
É confiança institucional.

Conclusão

É correto afirmar, sem rodeios:

> A CEPLAC foi financiada pelo cacau exportado.
O maior beneficiário foi o Estado — especialmente durante o regime militar — e não o produtor.

Se a ANPC pretende representar uma ruptura real, precisa começar com:

transparência;

governança clara;

reconhecimento dos erros;

e diálogo aberto com quem pagou a conta.

Sem isso, a “nova CEPLAC” corre o risco de nascer velha.
Com discurso moderno — e o mesmo silêncio estrutural.

 

Cleber Isaac Filho é hoteleiro, ambientalista, empreendedor e coordenador do Programa Economia Verde


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