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A Sagrada Família do Cacau Quando produzir não é viver

Em alguma região cacaueira da África Ocidental, vive uma família simples. Ele cultiva a terra. Ela cuida da casa e das crianças. O cacau cresce sob o sol — fértil, promissor. Mas, apesar disso, a mesa permanece vazia. Não por preguiça, nem por falta de trabalho — mas porque o fruto do seu esforço não lhes pertence.

Atualizado em 25/12/2025 às 18:12, por Caliana Mesquita e Ney Marçal.

Família de agricultores caminha entre fileiras de cacaueiros ao entardecer; homem segura um fruto de cacau, mulher e criança observam a plantação, com sacas e um caderno sobre a mesa à frente e uma cidade ao fundo.

Essa família poderia se chamar de qualquer nome. Mas, simbolicamente, chamemos de José, Maria e o menino Jesus.

José planta o cacau. Trabalha o ano inteiro. Enfrenta pragas, estradas precárias, custos crescentes. Quando chega a colheita, ele não pode escolher para quem vender, nem quando vender, nem por quanto vender.

Em países como Gana e Costa do Marfim — responsáveis juntos por cerca de 60% de todo o cacau produzido no mundo — o setor é rigidamente controlado por estruturas estatais centralizadas. O produtor é obrigado a vender sua produção aos órgãos oficiais, como o COCOBOD, em Gana, e o Conseil du Café-Cacao, na Costa do Marfim, por preços previamente fixados pelo governo.

 

Mais do que isso:
em ambos os países, vender cacau para outro país, contrabandear a produção ou simplesmente reter o produto para estocar e esperar um preço melhor pode ser considerado crime, sujeito a multas, apreensão da produção e até prisão. O agricultor não é tratado como agente econômico, mas como suspeito.

O cacau é dele.

Mas o destino do cacau, não.

Enquanto isso, no outro extremo da cadeia, cerca de 80% de todo o cacau do mundo é comprado por apenas quatro grandes multinacionais, formando um verdadeiro cartel global de processamento e compra. Ou seja: o produtor é coagido pelo Estado local, enquanto o mercado internacional é concentrado por poucos compradores com enorme poder de barganha.

Maria faz contas impossíveis. O preço imposto muitas vezes não cobre os custos mínimos da família. O cacau que no mercado internacional chega a valores recordes — chega à família por uma fração disso, tarde demais e pouco demais.

O menino cresce entendendo cedo que ali não há liberdade econômica. E sem liberdade, não há futuro.

Essa família não foge da guerra.

Não foge da seca.

Não foge do clima.

Ela foge de um sistema.

O menino que talvez conheça um chocolate (foto IA)

São refugiados econômicos, expulsos da própria terra por um modelo que concentra valor fora do campo e transforma o produtor em peça submissa de uma engrenagem estatal e internacional.

O poder exercido sobre José lembra, simbolicamente, o de Pôncio Pilatos:
o Estado lava as mãos, fixa regras, impõe preços e punições, mas se exime da responsabilidade pela pobreza gerada. O produtor obedece — ou sofre as consequências.

E não se trata de casos isolados. Estimativas das Nações Unidas indicam que mais de 7,5 milhões de pessoas migraram internacionalmente na África Ocidental, majoritariamente por razões econômicas. Gana possui cerca de 1 milhão de cidadãos vivendo fora do país, e a Costa do Marfim também ultrapassa 1 milhão de emigrados, muitos deles oriundos de regiões rurais sem alternativas econômicas viáveis.

Assim como José e Maria, milhares de famílias enfrentam uma escolha impossível:
ficar, obedecer e empobrecer — ou partir ilegalmente em busca de sobrevivência.

O menino aprende a andar olhando para o horizonte.

Enquanto isso, o mundo consome chocolate sem saber — ou fingindo não saber — que por trás de cada barra barata existe coerção estatal, concentração de mercado e silenciamento do produtor.

Falar de sustentabilidade sem falar de liberdade de comercialização, direito de estocar, preço justo e fim da criminalização do agricultor é apenas discurso confortável.

O drama dessa família africana não é religioso.

É econômico.

E sua travessia continua acontecendo todos os dias — longe dos holofotes, mas muito perto do nosso consumo.

Cleber Isaac Filho é hoteleiro, ambientalista, empreendedor e coordenador do Programa Economia Verde

 

Fonte https://www.cacauechocolate.com.br/v1/2025/12/23/a-sagrada-familia-do-cacau/


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